Cinemaju - Sétima Arte

sábado, março 04, 2006


Munique

- sinopse

Nas Olimpíadas de Munique em 1972, atletas israelenses são sequestrados por terroristas palestinos. A conclusão do sequestro, e as incursões da polícia secreta israelense, a Mossad, são mostradas no novo filme de Steven Spielberg.

- israelenses e palestinos

Durante a Segunda Guerra Mundial, os judeus foram expulsos de seus lares na Alemanha e Polônia, e tiveram seus bens confiscados pelos nazistas. Além disso, sofreram os horrores do holocausto. Em 1947, no pós-guerra, foi criado o Estado de Israel, o que representou para muitos, uma nova residência próxima à capital sagrada, Jerusalém. Lá, um outro povo vivia, os palestinos, fiéis seguidores da religião islâmica.
Uma disputa por territórios, religião e poder, então, começou. De um lado Israel e o judaísmo, com apoio dos países que promoveram sua fundação, Inglaterra e Estados Unidos, e do outro lado, a Palestina e o islamismo, sob apoio de vários países islâmicos do Oriente Médio. A partir da criação da OLP ( Organização para Libertação da Palestina ), o conflito político se alastrou, e o aparecimento de grupos terroristas como o Hamas e o Hezz-Bollah, desencadearam mais mortes e ataques suicidas.
O nome do filme, Munique, induz a idéia de que a ação decorre toda sobre o sequestro dos atletas israelenses em 1972 por terroristas palestinos, porém, o filme trata muito mais sobre as consequências desse ato. Baseado em fatos reais, Munique expõe o jogo de atentados e vinganças entre judeus e palestinos, uma briga histórica, que parece estar enraizada na consciência desses povos. Eric Bana faz um agente da Mossad, polícia secreta israelense, encarregado de assassinar onze terroristas palestinos; para isso, ele é responsável por liderar quatro outros agentes.
As ações e confusões do grupo são mostradas no filme, onde os personagens são caracterizados como inseguros e despreparados para os atentados. Incrível é a quantidade de dinheiro investida por Israel para localizar os nomes da lista negra, coisa de duzentos mil dólares por nome ( para aquela época?!).
Munique mantém linha de não defender nenhuma das partes envolvidas. Procura mostrar, apenas, que a perda de entes e conterrâneos é dolorosa, e a violência de judeus ou palestinos apenas traz mais vingança.

- Spielberg

Steven Spielberg volta às suas raízes judaicas com Munique, realizando uma bela reconstituição de fatos, e expondo uma vez mais a temática da família, que parece ser uma de suas favoritas. É forte candidato ao Oscar.
O elenco é muito bem dirigido e passa grande naturalidade à trama. Geoffrey Rush, Eric Bana e o resto do elenco são ótimos. Bana ( Hulk, Tróia ) se encaixa bem no papel do agente que ao assassinar terroristas, começa a gostar do que faz, apesar de perceber depois, que sem sua família, não dá para continuar. Estranho são os sonhos de Bana sobre o sequestro dos atletas, parecendo descaracterizado com o personagem.
O filme acerta em cheio, e consegue passar com bastante realismo, uma mensagem de paz, sem desmerecer israelenses ou palestinos.

sexta-feira, março 03, 2006


SYRIANA

- sinopse

Diferentes histórias e personagens se cruzam para criar um grande painel sobre a indústria do petróleo e suas implicações — terroristas, especuladores, agentes da CIA, cultura e religião se misturam no complexo jogo de interesses que é Syriana.

- petróleo

No meio da riqueza de personagens e situações em Syriana, pergunto-me quem seria o protagonista? Não demoro para responder que o cargo está ocupado pelo petróleo. O ouro negro envolve a vida de todos no filme; e são marionetes, simples, sem entender o grande jogo de poder, dinheiro e manipulação a fluir.
Traçando um painel geral sobre a indústria do petróleo, Syriana revela a situação de diversos caracteres, que de maneira ou outra sofrem consequências, ou manipulam grandes meios de política e corrupção. Vemos operários de petrolíferas, fundamentalistas religiosos, terroristas, agentes da CIA, presidentes de megacorporações, príncipes e políticos. Todos eles influem de alguma forma para a conclusão do filme.
A história de Bob, agente da CIA vivido por George Clooney, começa por uma venda de armas, cujo destino são as mãos erradas de terroristas. Bob começa a descobrir uma rede de corrupção e influência, que acaba por manipulá-lo, e incriminá-lo como bode espiatório.
Seguindo para o Líbano, o filme fala das ambições de dois príncipes, um, apenas interessado em suceder o trono de seu pai, e outro, Rasir, que junto ao executivo interpretado por Matt Damon, planeja trazer respeito e prosperidade ao seu país. Interessante é o diálogo dos dois últimos sobre como realizar reformas de caráter social e econômico para toda a população.
Entre todas as cenas com executivos de empresas, especuladores e advogados, a que guarda maior valor é o investimento de empresas chinesas no petróleo libanês, o que provoca a fúria do mercado norte-americano e dá origem ao mote do filme. A partir daí, políticos, advogados e executivos irão realizar uma corrente de intrigas, envolvendo a CIA, o Hamas, e o príncipe Rasir.
A arma vendida por Bob chega a um simples operário de empresas petrolíferas, que após ser demitido, e até espancado por soldados israelenses, torna-se seguidor de um fundamentalista religioso com intenção de prepará-lo para cometer atentados.

- o filme

Syriana é dirigido por Stephen Gaghan ( roteirista de Traffic ), e produzido por Steven Sodeberg e George Clooney, cuja atuação como o agente Bob é convincente e concorre ao Oscar. No elenco também estão Matt Damon, Amanda Peet e o veterano Christopher Plummer. De valor são as atuações do núcleo árabe da trama, incluindo o Príncipe Rasir e o jovem operário.
O filme é dividido em pequenas tramas, aparentemente sem relação, que alternam até o final, quando fica comprovado que os pequenos fatores são essenciais para a conclusão. Impressionante é a maestria com que Gaghan mantém o suspense em torno do destino dos personagens; porém as questões familiares mostradas no filme parecem ter pouco a ver com a trama.
Concorrendo ao oscar de melhor roteiro original, Syriana comprova seu pioneirismo realizando um crítico retrato da “sociedade” do petróleo e suas repercussões políticas, religiosas e individuais, além de demonstrar o amplo interesse internacional acerca do oriente médio. Provavelmente, será o fundador de uma geração de filmes sobre o tema.
E o que será do Oriente Médio quando o petróleo acabar?


sábado, fevereiro 11, 2006


Como gostar de cinema brasileiro ?!

- histórico

Bem eu sei que as raízes do cinema nacional estão encravadas muitas décadas atrás, lá pelos idos da Atlântida, onde lendários nomes como Oscarito e Grande Otelo faziam história, e, até hoje fazem no preto e branco das antigas cópias. E outros nomes me vêm também, apesar de só conhecer por audição, mas lembro da figura do ator Mazzaropi, eterno Jeca Tatu, cuja silhueta conheci através de documentários. E houve também o oscar de melhor filme estrangeiro para Orfeu Negro, co-produção entre Brasil e França, e dirigido pelo francês Marcel Camus, em 1959, baseado na peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes. Porém, só ouvi falar. É que minha história com o cinema brasileiro começou apenas com o Cinema Novo, do qual pude assistir Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), um dos clássicos de Glauber Rocha. E surgido nessa época também, Arnaldo Jabor fez Eu sei que vou te amar nos anos 80.
Daí, eu assisti a enxurrada de pornochanchadas produzidos a partir dos anos 70, e repetitivamente exibidos pelo Canal Brasil, nomes como O Inseto do Amor, Pecado Horizontal ... resumindo: filmes que não transcendem seus temas, e que dominaram a produção cinematográfica brasileira dos anos 70 e 80. Embora a dificuldade de lançar filmes com temática inteligente fosse fato, devido a forte censura imposta pela ditadura a diretores como Glauber, Ruy Guerra e Jabor, produções como A Estrela Nua, Dona Flor e seus dois maridos e Rio Babilônia representam a qualidade da época. Lembro-me agora dos filmes estrelados pelos Trapalhões para o público infantil, alguns são excelentes, como Os Trapalhões e o Mágico de Oroz, verdadeiro clássico da Sessão da Tarde. Dentre os musicais, o melhor é Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967), aos outros do “Rei” falta emoção.
A partir dos anos 80, surgiu um cinema para jovens, pavimentado pelos filmes Menino do Rio e Garota Dourada. Os Trapalhões continuavam com impulso total, e Xuxa Meneghel lançava os bons Xuxa contra Baixo Astral e Lua de Cristal, infantis, contradizendo sua estréia no polêmico Amor Estranho Amor. Enquanto apareciam filmes com os pseudo-atores Faustão, Sérgio Mallandro, Conrado, Supla, e até o grupo Dominó, Neville de Almeida ainda lançava suas produções abordando prostituição, violência, corrupção e drogas. “Matou a família e foi ao cinema”.

- a Retomada

É considerada a retomada da produção cinematográfica brasileira, a estréia do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995) de Carla Camurati. Edificada, ainda, por lançamentos como O Quatrilho (1995), O que é isso companheiro?, e recentemente Cidade de Deus. Durante esses dez anos de uma atividade consistente, e, crescente, o cinema nacional faz bonito em filmes que aliam bons roteiros, atuação e direção, sendo exemplos O Invasor, Carandiru, O Homem do Ano, Espelho d’água - Viagem ao Rio São Francisco, O Homem que copiava, As Meninas, Gaijin - Ama-me como sou, Mauá - o Imperador e o Rei, Benjamim, O Coronel e o Lobisomem, além dos novos clássicos, O Auto da Compadecida, o cult Durval Discos, e claro, Cidade de Deus.
Mesmo com a onda de filmes citados, parece que há grande interesse de investidores e da TV aberta em financiar produções repetitivas e de pouca expressividade, em sua maioria comédias românticas, atuadas por astros da mídia. Filmes medianos como Sexo, Amor e Traição ( a versão original em espanhol é bem mais interessante), Romeu e Julieta, Como fazer um filme de amor, Se eu fosse você, dentre outros, apenas reforçam a imagem dos atores de novelas. E a TV aberta, a fazer grande marketing de suas produções, insistentemente cria uma aura de qualidade sobre seus filmes como se fossem clássicos. É o caso de Olga e Dois Filhos de Francisco, duas produções que deixam a desejar. Enquanto isso , bons diretores brasileiros (Hector Babenco, Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno Barreto) realizam bons filmes estrangeiros – veja Ironweed de Hector Babenco, por exemplo.

- Como gostar de cinema brasileiro?

Parece que nosso cinema chega agora a pontos cruciais: o público está conscientizado de que o cinema no Brasil pode atingir padrões de qualidade internacional; a quantidade de curtas e longas metragens vêm crescendo; financiamento têm chegado às mãos de produtores.
O que falta ainda, acredito, é a estabilidade desses processos. Considerando: muitos cinemas não têm interesse em apresentar os filmes, sendo exceção as comédias românticas; a má distribuição de recurso estatal é fato, e muito discutido na política pública; há falta de valorização e publicidade em torno de filmes engajados ou com fins artísticos. Somente a resolução dessas questões irá colaborar para o desenvolvimento da indústria cinematográfica brasileira.
E eu, o que posso esperar? Ir na locadora, pegar um bom filme ... ah ... sim ... gosto de cinema brasileiro !

sábado, agosto 27, 2005


Em Boa Companhia

Sinopse

Dan Foreman (Dennis Quaid) é um executivo de meia-idade que acaba de perder seu emprego para Carter Duryea (Topher Grace), um rapaz de apenas 26 anos. Não fosse só por isso, Dan precisa lidar com a gravidez da esposa e financiar a universidade da filha, Alex (Scarlett Johansson), enquanto Carter o nomeia como seu braço direito.

O Filme

O mundo econômico e globalizado é o cenário de “Em Boa Companhia”, onde grupos de empresas realizam grandes transações financeiras e compram umas às outras, formando holdings. Não há espaço para os sentimentos e aspectos familiares dos executivos que trabalham nelas, eles são como simples marionetes submetidos ao acaso do universo comercial. Quando uma megaempresa compra outras menores, os funcionários têm seu salário reduzido, ou são dispensados. Esse é o mote em que o filme se concentra.
O diretor Paul Weitz (“Um Grande Garoto” com Hugh Grant) conduz essa comédia excelente sobre o mundo moderno, a solidão e as incertezas da vida. No elenco estão Dennis Quaid, fazendo seu melhor papel em anos, o novato Topher Grace de That 70’s Show e Scarlett Johansson, como a jovem Alex. Quaid representa Dan Foreman, o executivo de meia-idade que precisa encarar problemas financeiros e familiares. Topher Grace se sai bem e faz Carter Duryea, um jovem e bem-sucedido executivo, que tenta solucionar a crise em seu casamento, e enfrentar a carência e a solidão. Ele é um verdadeiro work-a-holic. O filme traça um paralelo entre esses dois personagens. Um é a imagem do outro com anos de diferença. A ambição de Carter é ter uma vida como a de Dan, ele discute com a esposa a idéia de ter filhos, uma casa melhor, constituir família, apesar de não ter a estrutura e estabilidade para isso. Tanto que ele procura em Dan a imagem de um pai que nunca teve, uma pessoa com quem possa se aconselhar e lhe mostrar o significado de uma família.
“Em Boa Companhia” traz um roteiro, também assinado por Paul Weitz, rico em originalidade e bons diálogos. É uma comédia leve e inteligente, que agrada a todo público, e consegue criar boas situações e reviravoltas. Seu final é surpreendente!

domingo, agosto 14, 2005


A ILHA

sinopse

Lincoln Six-Echo (Ewan McGregor) e Jordan Two-Delta (Scarlett Johansson) convivem num complexo, que abriga os últimos sobeviventes de uma grande contaminação que houve na Terra. Todos sonham em ir para A Ilha, único local que saiu ileso, onde os vencedores de um sorteio poderão dar continuidade à espécie.

O Filme

Michael Bay confirma com A Ilha o seu impecável talento para dirigir superproduções. Depois de Bad Boys, A Rocha e Armageddon, ele guia o público em fantásticas cenas de ação, além de criar um universo visualmente belo, e arrancar boa atuação do elenco. Nele, destacamos Ewan McGregor, fazendo o curioso Lincoln; Scarlett Johansson, como Jordan Two-Delta; Steve Buscemi (Fargo), interpretando mais um personagem esquisito; e Michael Clarke Duncan (À Espera de um Milagre). McGregor, após o cult Transpointting, engrena agora nos filmes de ação (a saga Star Wars, A Ilha). Interessante é sua dupla participação, como o clone e o original, Tom Lincoln. Scarlett Johansson, já aclamada por Moça com Brinco de Pérolas e Encontros e Desencontros, faz aqui uma personagem secundária à de McGregor, ficando à margem. Poderia ter recebido mais destaque no filme, considerando seu talento.
A primeira hora de A Ilha é sensacional. A história dos clones confinados num antigo bunker militar, à espera de que possam ser utilizados como doadores de órgãos, é bem criativa. Eles não têm consciência de sua função! Todos estão ali, levando modo de vida regrado, e rotina repetitiva. O brilhantismo está em como eles descobrem que tudo aquilo é uma ilusão.
Os clones são simples “crianças” que começam a descobrir o mundo e questionar o nome, o sentido e as cores das coisas. Artisticamente linda é a cena em que o personagem Lincoln Six-Echo descobre uma libélula no complexo. Ele fica encantado, e investiga-a minuciosamente. Foi o que ocorreu de mais fantástico em sua vida. O filme poderia terminar após essa primeira hora, quando Lincoln e Jordan saem do complexo. A simples idéia de que eles irão descobrir um novo mundo é suficiente (lembrem de O Show de Truman, o filme tem fim, quando Truman consegue deixar o programa de televisão, e pronto). Não é necessário cenas de ação, luta e combate, o fim dos personagens fica a cabo de quem assiste ao filme imaginar.
O roteiro, apesar de apresentar traços de originalidade, lembra Admirável Mundo Novo, baseado no homônimo livro de Aldous Huxley. Não ficou bem coeso—as cenas de ação, apesar de sensacionais, poderiam ser moderadas, inclusive o embate entre polícia e esquadrão; a graça do filme é bem clichê, como a cena do banheiro ou a do cartão de crédito; os personagens poderiam ser mais sutis em suas descobertas, ou menos maliciosos, no caso de Lincoln; o final do filme simula um verdadeiro videoclipe, com os protagonistas se beijando, música erudita, e os clones, vestidos de branco, caminham em direção ao alto de uma montanha. Só faltou tocar “We are the World” ou “Imagine”! Também, o líder do esquadrão, que passa o filme todo perseguindo os clones, no videoclipe final é valorizado, e se torna herói, pois o roteirista inventa uma baboseira de que no passado o personagem foi marcado como inferior e seu pai morto. Curiosa, é a história de que a memória das pessoas originais é passada para os clones, como se estas ficassem armazenadas nas células embrionárias. É uma concepção errada do roteirista (o mesmo foi feito em O Enviado, com Robert de Niro).
Acredito que o filme poderia ter sido baseado no roteiro de sua primeira hora. Porém, por ter sequência de ação rápida e ser bem dirigido, o filme garante diversão a todo público. Com certeza, recheará as bilheterias, e atiçará discussões éticas.

domingo, agosto 07, 2005


SIN CITY

Sinopse

Basin City é uma cidade habitada por policiais durões, prostitutas armadas e maníacos de todo o tipo, de esquizofrênicos a pedófilos. Lá serão contadas três histórias: a de Hartigan, um policial prestes a se aposentar, que enfrenta seu último caso — prender os sequestradores de uma garotinha; a de Marv, um beberrão bom de luta, que trilha uma vingativa caçada; e a de Dwight, um aventureiro que visa matar o namorado de sua amante.

Frank Miller e Robert Rodriguez

Aparecem creditados como diretores do filme os parceiros Frank Miller e Robert Rodriguez. O primeiro, em relação a cinema, só tem a experiência de ter escrito os roteiros de Robocop 2 e 3, verdadeiros fracassos, que o fizeram se afastar por longos anos da telona. Porém, em relação a quadrinhos, Frank Miller é considerado um dos grandes mestres e inovadores da arte. Quando o mundo dos quadrinhos andava estagnado, lá pela década de 80, ele recriou personagens como Batman, Demolidor e Elektra, dando densidade psicológica e mais emoção às suas estórias. Também foi responsável por uma das principais fases do personagem Wolverine.
O roteiro do filme é todo baseado, senão “fotografado” das histórias em quadrinhos de Sin City, revista lançada por Frank Miller, que se passa na cidade de Basin City ( a sua versão de Los Angeles), chamada de Sin por ser a cidade dos pecados. Frank criou um mundo infestado de policiais corruptos e violentos, políticos inescrupulosos, clérigo decadente, prostitutas organizadas numa verdadeira milícia armada e loucos de todo o tipo: esquizofrênicos, pedófilos, assassinos em série e antropófagos. Não há espaço para heróis, e nem heroínas. O que vemos é o típico arquétipo de anti-herói, isto é, um personagem de caráter solitário e egoísta, que tem a linha muito tênue entre o certo e o errado. As garotas, geralmente, são prostitutas lindas e sedutoras, que agem como viúvas negras, são capazes de te amar e de te matar. Os vilões são todos aqueles que conseguem ser mais cruéis que os anti-heróis.
Robert Rodriguez é um diretor já conhecido. Fez filmes como El Mariachi, um sucesso a custo baixíssimo de produção, A Balada do Pistoleiro, sua continuação, com Antonio Banderas e Salma Hayek, e fechando a trilogia, Era uma vez no México, o que teve maior publicidade, também com Banderas, e Johnny Depp. Em Um Drink no Inferno, com George Clooney, Rodriguez teve a participação como ator de seu amigo e contemporâneo, o diretor Quentin Tarantino, que inclusive chegou a dirigir um dos episódios de Sin City.
Rodriguez e Tarantino têm muitos pontos em comum em suas filmografias: o gosto pela violência, diálogos sarcásticos, respostas curtas, sequenciamento de cenas como videoclipe, e preferência por personagens estranhos, isto é, sujeitos inconstantes, com tique nervoso e gostos excêntricos (influência de David Lynch). De Um Drink no Inferno para Sin City, foi herdado o excesso de cenas saguinolentas e de violência escatológica, chegando em alguns momentos a lembrar o gênero trash.

Prêt-à-Porter

Sin City é fotografado em preto e branco. A maioria dos cenários é computadorizado e formatado com efeitos especiais. Por isso, os atores, geralmente, foram filmados em estúdios, sobre telas verdes, tudo isso supervisionado por Rodriguez, que lidera da produção à trilha sonora, e Miller. Muitas cenas foram filmadas de ângulos correspondentes aos quadrinhos da revista, gerando fidelidade ao roteiro e originalidade cinematográfica—além de ser a melhor adaptação, estabiliza uma nova maneira de criar cinema (lembra Capitão Sky e O Mundo de Amanhã).
Seguindo o mesmo panorama de filmes como O Selvagem da Motocicleta, de Francis Ford Coppola, A Lista de Schindler, de Steven Spielberg e A Vida em Preto e Branco, de Gary Ross, Sin City destaca sobre a fotografia em preto e branco alguns objetos, ou parte dos personagens com cores vivas. Em O Selvagem da Motocicleta, o personagem de Mickey Rourke não consegue distinguir cores, a não ser a dos peixes azulados no aquário. Em A Lista de Schindler, Spielberg destaca, no meio do holocausto, a garotinha de vestido vermelho. Em A Vida em Preto e Branco, à medida que os personagens adquirem emoções, eles vão se tornando coloridos. Sin City utiliza o mesmo efeito para dar emoção aos olhos dos personagens, ou enfatizar o sangue derramado, ou ainda, tornar personagens mais grotescos.

O Filme

Sin City tem o seu roteiro assinado por Frank Miller. A filmagem das cenas foi feita seguindo os quadrinhos. Muitas delas reproduzem com perfeição os desenhos das revista. Os diálogos não ficam atrás. Todos eles foram retirados dos personagens, e se caracterizam por serem curtos. Há grande presença de monólogos. Os personagens são introspectivos e refletem sobre seus atos, sua condição miserável e situações irreversíveis.
O estilo do filme é influenciado pelo Noir—padrão de filme policial, predominante nas décadas de 30 e 40, em que o protagonista encontra-se desajustado no mundo, e envolve-se com a principal suspeita de um crime, gerando muito suspense. A fotografia em preto e branco ajuda, e o filme é tenso do início ao fim.
Em Sin City, não há personagem principal. O protagonista é a própria cidade, e todos estão condenados a ela, incapazes de ir embora ou escapar. É o verdadeiro inferno, onde todos pagam seus pecados. A única saída é a morte.
O filme começa com um episódio denominado “O Freguês tem sempre razão”, com Josh Harttnet, e serviu como protótipo para que Frank Miller cedesse os direitos de Sin City para a empreitada de Robert Rodriguez. É bastante curto, e logo é sucedido pelo próximo episódio, que tem a participação de Michael Madsen, Bruce Willis e Jessica Alba. Willis está muito bem como Hartigan, um dos poucos policiais honestos, que precisa superar sua deficiência cardíaca. Jessica Alba faz a linda Nancy, única amiga e motivação de Hartigan.
A segunda parte do filme conta a história de Marv, um brutamontes, que procura vingar uma prostituta com quem passou a noite. É um pesonagem carente de sentimentos, que faz da violência as suas palavras. Marv é interpretado convincentemente por Mickey Rourke, que está irreconhecível devido à pesada maquiagem. Também participam Jaime King, como a prostituta Goldie, Rutger Hauer, como Cardeal Roak e Elijah Wood, como um garoto antropófago. É o trecho do filme de maior ação, e os personagens aparentam ser sobrenaturais.
A terceira história é a de Dwight ( o ótimo Clive Owen), o esquizofrênico aventureiro que se envolve com uma garçonete ( Brittany Murphy), e tem de se livrar do namorado dela, o policial Jackie Boy (Benicio del Toro), uma figura excêntrica e inconsequente. O trecho é recheado de reviravoltas, prostitutas sexys e violência. Inquietante é o personagem de Clive Owen conversando com o já morto Jackie Boy.
Embora tenha muitas sequências de ação e violência, Sin City é um filme tenso, que mantém o clima de suspense. A violência e os combates saguinolentos passam dos limites em alguns momentos (como a cena em que Hartigan arranca os testículos do oponente). Há muitas cenas fortes, e os episódios são sérios e coerentes. Não é direcionado para todo tipo de público.
O filme vale por sua originalidade, e conta com boas atuações num roteiro bem adaptado e fotografia bem dirigida. Marcará época, e influenciará gerações.

segunda-feira, agosto 01, 2005

O Quarteto Fantástico
Sinopse

Grupo de cientistas, em viagem ao espaço, é bombardeado por raios cósmicos. De volta à Terra, começam a adquirir incríveis poderes. Reed Richards pode esticar partes de seu corpo; Sue Storm pode ficar invisível e criar campos de força; Seu irmão, Johnny Storm, manipula o fogo, e vira o Tocha Humana; E Ben Grimn, que adquire grande força e transforma-se num monstro de pedra, chamado “O Coisa”. Perseguidos pela imprensa e ameaçados pelo temível Dr. Destino, eles se tornam o Quarteto Fantástico.

Os Quadrinhos

Em 1961, Stan Lee (o mesmo criador de O Homem-Aranha e X-men) e Jack Kirby lançavam pela Marvel Comics o Quarteto Fantástico. O grupo formado por Reed Richards, Sue Storm, Tocha Humana e o Coisa seria a primeira família de super-heróis dos quadrinhos (Os Incríveis são seus parentes mais próximos). Publicados na revista americana Fantastic Four, eles viriam a ser conhecidos no Brasil somente nos anos 80, nas revistas Super Aventuras Marvel e O Homem Aranha. Da adaptação dos quadrinhos para a telona, algumas alterações foram feitas: Johnny Storm está mais canastrão do que nunca. Ben Grimn tinha aparência jovial, e cabelos. O filme traz explicações físicas e biológicas para as alterações dos personagens, indicando o fato de o grupo criado nos anos 60 ser reproduzido nos dias atuais.
O Dr. Destino é o personagem que sofreu maior reformulação. Originado de família cigana, Victor Von Doom (é o seu nome verdadeiro) viria a se tornar ditador de uma pequena província fictícia, a Latvéria (palavra que aparece no filme, sem qualquer explicação, provavelmente deixando muitos curiosos). Após a morte de sua mulher e grande amor de sua vida, ele passa a estudar magia obscura, a fim de adquirir poderes para ressucitá-la (semelhanças a parte com Darth Vader de Star Wars). Não obtendo sucesso, e com o rosto deformado por ferimentos, passa então a usar a armadura, fabricada por monges tibetanos, tornando-se um dos grandes arquivilões do Universo Marvel.

O Filme

O diretor Roger Corman em 1994 lançou sua versão de O Quarteto Fantástico, um verdadeiro fracasso de aparência trash. Antes disso, a Hanna-Barbera já havia produzido uma série de desenho animado.
Com orçamento de 100 milhões dólares, sai essa versão dirigida por Tim Story (o mesmo de Taxi), uma superprodução recheada de efeitos especiais. No elenco destacam-se Jessica Alba ( Sin City), muito bem como Sue Storm e o carismático Chris Evans (Celular – um grito de socorro), fazendo o papel de Tocha Humana. O filme é uma boa sequência de ação que intercala efeitos especiais, impressionantes e muito realistas, e piadas irônicas, algumas delas bem clichês. O drama do Coisa em relação a esposa ficou bastante superficial e suprimido pelo clima de romance entre Reed Richards e Sue Storm. Alguns exageros são cometidos em relação às explicações físicas (“Supernova”).
Não deixando de seguir o padrão hollywoodiano, Quarteto Fantástico é um filme divertido ( talvez umas das melhores adaptações de quadrinhos), pertencendo ao mesmo time de filmes como X-men e O Homem-Aranha. Garante boa bilheteria e prováveis continuações.